Lançado em janeiro de 2026, “Criolo, Amaro & Dino” é mais do que um álbum colaborativo, é um manifesto artístico que reúne três das vozes mais inquietas e relevantes da música contemporânea em língua portuguesa. Criolo, um dos maiores letristas do Brasil, Amaro Freitas, pianista que redefiniu os limites do jazz brasileiro, e Dino d’Santiago, figura central da música afro-portuguesa, unem trajetórias, territórios e visões de mundo num projeto que nasce da amizade, do respeito mútuo e de uma profunda consciência histórica e cultural. O encontro entre os três começou a ganhar forma em Lisboa e teve como embrião a canção “Esperança”, lançada em 2024 e indicada ao Latin Grammy, mas rapidamente ultrapassou a lógica de uma colaboração pontual para se transformar num disco coeso, denso e conceitualmente ambicioso.
Com doze faixas e pouco mais de meia hora de duração, o álbum percorre uma paisagem sonora que atravessa RAP, jazz contemporâneo, MPB, batuku, funaná, morna e cantos de matriz africana, sem nunca se submeter a rótulos fáceis. A música aqui não funciona como vitrine de estilos, mas como linguagem, moldada pela ancestralidade comum que liga África, Brasil e Portugal. O piano de Amaro Freitas surge ora como elemento rítmico, ora como espaço de contemplação; as vozes de Criolo e Dino alternam entre o canto, a poesia falada e o RAP, sempre carregadas de intenção política, espiritual e humana.
As letras abordam temas como educação, exclusão social, pertencimento, espiritualidade, amor e resistência, frequentemente recorrendo a imagens poéticas e simbólicas que convidam o ouvinte à reflexão. Canções como “E se livros fossem líquidos (Poeta fora da lei Pt II)” e “Amazônia (A-i’ahu)” evidenciam o compromisso do trio com uma arte que não se limita ao entretenimento, mas dialoga com as urgências do presente. Ao mesmo tempo, faixas como “Menina do Coco de Carité” e “Seka” celebram a herança cultural afro-atlântica, integrando vozes, ritmos e saberes tradicionais num contexto contemporâneo, sem exotização ou romantização.
O processo criativo do álbum foi marcado pela liberdade e pela ausência de hierarquias. Gravado entre Brasil e Portugal, o disco nasceu de encontros, improvisações e escutas atentas, num fluxo criativo que privilegia a troca e a construção coletiva. Essa dinâmica reflete-se também na identidade visual do projeto, cuja capa foi criada por Vik Muniz, reforçando o caráter simbólico e artístico da obra. Desde o lançamento, o álbum tem sido amplamente discutido por críticos e público, gerando reações que variam da admiração imediata à necessidade de múltiplas escutas para plena assimilação, algo que apenas reforça a sua complexidade e profundidade.
Ao fim da audição, “Criolo, Amaro & Dino” impõe-se não apenas como um álbum de excelência, mas como um acontecimento artístico raro. Trata-se de uma obra que desafia o ouvinte a abandonar escutas apressadas e categorias fáceis, exigindo atenção, silêncio e disponibilidade emocional. A genialidade do disco reside precisamente na sua recusa em ser óbvio: cada faixa funciona como um território de fricção entre tradição e futuro, palavra e silêncio, ritmo e contemplação. Não há concessões ao mercado nem fórmulas repetidas; há risco, maturidade e uma consciência profunda do papel da arte num mundo fragmentado. Criolo, Amaro Freitas e Dino d’Santiago não constroem apenas canções, constroem pontes simbólicas entre continentes, memórias e lutas comuns. É um álbum que cresce a cada escuta e que, muito provavelmente, será lembrado não como um retrato do seu tempo, mas como uma obra que ajudou a redefinir os limites da música em língua portuguesa.