Como não ser saudosista quando o silêncio grita?!

A pergunta “como não ser saudosista?” parece simples, mas carrega uma armadilha. Muitas vezes, o saudosismo não nasce da idealização do passado, e sim da frustração com o presente. No caso do RAP nacional, essa (minha) frustração é justificável: durante décadas, o RAP foi um verdadeiro raio-X do Brasil, expôs desigualdades, denunciou o racismo estrutural, revelou a violência do Estado, traduziu em rima aquilo que os editoriais evitavam dizer em prosa.

Não era apenas música. Era documento histórico. Era contra-narrativa.

Eu vi essa mudança acontecer. Vivi a transição do analógico para o digital não como espectador distante, mas como pARTE de uma geração que gravava em fita, distribuía CD-R na mão, dependia do boca a boca e do território físico para existir. O RAP era encontro, compromisso, escuta atenta. O tempo da música era o tempo da rua. Com o digital, vieram o acesso ampliado, a democratização das ferramentas e a possibilidade real de romper cercas geográficas, conquistas inegáveis. Mas também veio a aceleração, a lógica do número, a diluição do contexto. A música passou a disputar atenção em segundos, não em ideias. O algoritmo substituiu o curador, e o engajamento passou a valer mais do que o conteúdo. Essa mudança não é neutra: ela reorganizou quem fala, quem é ouvido e, principalmente, sobre o que se fala.

Talvez isso ajude a entender o incômodo atual. Vivemos um momento em que problemas sociais graves seguem em curso e até se aprofundam. As políticas de cotas raciais, por exemplo, sofrem ataques diretos e indiretos, inclusive em estados como Santa Catarina, onde iniciativas institucionais tentam esvaziar ou extinguir esse instrumento de reparação histórica. Ainda assim, grande pARTE do RAP que ocupa o centro do mercado parece evitar esse tipo de enfrentamento. Não se trata de ausência total, mas de deslocamento. As pautas existem, porém raramente chegam aos grandes palcos, playlists ou portais.

Antes de cair na armadilha do “no meu tempo era melhor”, é preciso reconhecer que o RAP nunca foi uma entidade fixa. Ele sempre respondeu às condições materiais do seu tempo. Nos anos 1990 e 2000, o inimigo era mais visível: a polícia, a fome, o cárcere, a favela abandonada. O discurso era direto porque a violência era direta. Hoje, o poder opera de forma mais sofisticada: institucional, algorítmica, simbólica. A opressão não grita, ela normaliza. Talvez o silêncio de parte da cena seja também um sintoma dessa nova forma de controle.

Mas reconhecer isso não significa absolver tudo.

Há, sim, um esvaziamento político em grande parte da produção que se tornou hegemônica. O RAP que antes falava contra o sistema agora, muitas vezes, fala a pARTir dele, mediado por marcas, métricas, contratos e plataformas. A lógica do mercado exige constância, viralização, persona. O conflito social, complexo e incômodo, não performa bem no feed. A ostentação é mais facilmente monetizável do que a denúncia. Isso não é uma acusação moral ao artista individual, mas uma constatação estrutural: o capitalismo cultural aprendeu a conviver com o RAP, desde que ele não atrapalhe demais.

O mesmo processo atinge os chamados “portais de RAP e Hip Hop”. Muitos adotaram o nome e a estética da cultura, mas operam segundo a lógica mais rasa da economia da atenção. São páginas que se apresentam como jornalismo cultural, mas funcionam como repositórios de fofoca: conflitos pessoais, rankings artificiais, polêmicas vazias. O RAP vira linguagem visual; o Hip Hop, palavra-chave. Falta mediação crítica, contexto histórico, responsabilidade editorial. Falta, sobretudo, compromisso com a função social que essa cultura sempre reivindicou.

Diante disso, a pergunta retorna: como não ser saudosista?

Talvez a resposta esteja em mudar o eixo da comparação. Não comparar gerações, mas funções. O problema não é que o RAP “já foi melhor”; é que ele já foi mais necessário, e continua sendo. A diferença é que hoje essa necessidade não está apenas no microfone do artista consagrado, mas nas margens da própria cena: nos coletivos independentes, nos slams, nas batalhas de rima de bairro, nas músicas que não entram em playlists editoriais, nos corpos que seguem usando a palavra como ferramenta de sobrevivência.

Não ser saudosista é recusar a nostalgia paralisante, mas também é recusar o conformismo do presente. É cobrar sem romantizar, criticar sem deslegitimar, reconhecer transformações sem aceitar o esvaziamento. É entender que o RAP não nos deve nada, mas nós, enquanto sociedade, devemos prestar atenção quando ele deixa de incomodar.

Porque quando uma cultura que nasceu para denunciar passa a apenas entreter, não é só a música que muda. É o país que vai sendo silenciado, verso por verso.

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