Em Uberlândia (MG), vi jovens transformarem dor, silêncio e vivência em poesia, e entendi, mais uma vez, por que a literatura ainda salva futuros.
Em mais de dez anos atravessando escolas, periferias, bibliotecas, penitenciárias e territórios marcados pela vulnerabilidade social, poucas experiências me emocionaram tanto quanto ver jovens periféricos ocupando as páginas de um livro com suas próprias palavras.
O “Poesia que Transborda, Transforma” nasceu em 2015, em Laguna (SC), da necessidade de levar literatura para lugares onde ela historicamente quase nunca chega. Mas, acima de tudo, nasceu da urgência de mostrar que a poesia não pertence a uma elite intelectual. Ela pertence a quem vive, sente, resiste e sonha.
Quando criei o projeto, eu não imaginava quantas vidas seriam atravessadas por ele, inclusive a minha. Ao longo dessa trajetória, passei por mais de 30 municípios em seis estados brasileiros, levando oficinas para comunidades periféricas, alas psiquiátricas, bibliotecas públicas, penitenciárias e diferentes espaços onde o acesso à cultura ainda é tratado como privilégio.
Em cada território, encontrei realidades duras. Mas também encontrei potência. Encontrei juventudes inteiras carregando histórias que nunca haviam sido ouvidas. E foi justamente escutando essas vozes que compreendi que literatura não é apenas arte. Literatura também é sobrevivência.
Em 2025, o projeto chegou a uma das comunidades mais vulneráveis de Uberlândia (MG), através de uma parceria com o SESC. E foi ali que algo profundamente simbólico aconteceu: nasceu o primeiro livro oficial do “Poesia que Transborda, Transforma”, construído coletivamente com estudantes do Ensino Médio da Escola Estadual Lourdes de Carvalho.
Não foi apenas um livro. Foi pertencimento. Foi coragem.
Foi a materialização daquilo que eu sempre defendi: jovens periféricos não precisam que falem por eles. Precisam apenas que sejam escutados.
Durante as oficinas, os estudantes foram convidados a escrever sobre si mesmos. Sobre suas dores, memórias, afetos, ausências, medos e sonhos. Não existiam fórmulas prontas. Não existia certo ou errado. Existia apenas a liberdade de transformar vivência em palavra.
E foi impossível sair dali sem ser sensibilizado ainda mais.
Vi jovens que chegaram tímidos descobrirem potência na própria voz. Vi alunos que nunca tinham se reconhecido dentro da literatura entenderem, pela primeira vez, que também podiam ser autores. Vi poesia nascer de lugares onde a sociedade costuma enxergar apenas estatística.
E talvez esse seja um dos maiores problemas do nosso país: insistimos em medir juventudes periféricas apenas pelos índices de violência, evasão escolar e vulnerabilidade social, mas raramente paramos para enxergar a criatividade, a inteligência e a potência que existem nesses territórios.
Os números sobre leitura no Brasil são alarmantes. Segundo a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro, o país perdeu cerca de cinco milhões de leitores entre 2019 e 2024. Entre adolescentes de 15 e 16 anos, apenas uma pequena parcela consegue concluir leituras mais longas, enquanto muitos não ultrapassam dez páginas.
Mas existe um detalhe importante que muitas vezes passa despercebido: a maioria desses jovens afirma gostar de ler.
O problema nunca foi desinteresse. O problema sempre foi ausência de acesso, de incentivo e, principalmente, de identificação.
Como exigir que um jovem se apaixone pela literatura quando ele nunca se vê dentro dela? Como despertar pertencimento em espaços que historicamente ensinaram essa juventude a acreditar que seus corpos, suas histórias e suas dores não eram importantes?
Foi exatamente por isso que aquele livro ganhou um significado tão profundo para mim.
Porque o que está impresso naquelas páginas não são apenas poemas. São existências reivindicando espaço. São jovens ocupando um lugar que historicamente lhes foi negado: o lugar de autores das próprias narrativas.
O professor Gabriel Pimentel, da unidade escolar, definiu a experiência de uma maneira que me marcou profundamente. Segundo ele, viu jovens silenciados se tornarem voz e poesia brotar da dor e do afeto. Sua fala dialoga diretamente com os ensinamentos de Paulo Freire e Bell Hooks, quando defendem uma educação construída pela escuta e pela transformação coletiva.
E eu concordo profundamente com isso.
Porque educação não pode ser apenas transmissão de conteúdo. Educação também precisa ser encontro. Precisa ser humanidade. Precisa permitir que alguém se reconheça como sujeito capaz de pensar, criar e transformar o próprio destino.
Ao longo desses anos, aprendi que a literatura tem um poder que vai muito além das páginas. Ela reorganiza identidades. Ela devolve dignidade. Ela faz um jovem entender que sua história merece ser contada.
E quando isso acontece, algo muda para sempre.
A publicação do livro foi viabilizada com financiamento da ADUFU, por meio da Diretoria Executiva da Gestão Florescer nas Lutas, além do apoio da Editora Juriti e do Instituto Jerônimo Coelho.
Mas, sinceramente, existe algo muito maior sustentando essa obra: a coragem desses jovens.
Porque escrever sobre si mesmo também é um ato de enfrentamento. Principalmente quando o mundo inteiro tentou convencer você de que sua voz não importava.
Hoje, quando olho para esse livro, não vejo apenas uma coletânea de poemas. Vejo futuros sendo reconstruídos. Vejo autoestima florescendo. Vejo jovens entendendo que podem ocupar qualquer espaço, inclusive o da literatura.
E talvez seja isso que mais emocione.
A periferia sempre produziu arte, pensamento, sensibilidade e poesia. O que faltou, durante muito tempo, foi espaço para publicação, circulação e reconhecimento.
Mas a periferia cansou de esperar autorização.
Agora ela escreve.
E quando a periferia escreve, o país inteiro precisa parar para ler.